Lar, doce lar

VIVER NA BOLEIA DE CAMINHÃO PROVOCA DESGASTES FÍSICOS E PSICOLÓGICOS NO MOTORISTA. MAS QUE A PROFISSÃO TEM SEU LADO DIVERTIDO, ISSO TEM.

Morar no mundo e passear em casa. Isso que para muita gente pode ser uma simples frase de parachoque, para os profissionais do transporte de carga é a pura realidade. Este é o caso, por exemplo, do caminhoneiro Orlando Climério Gomes, de São Marcos (RS), que está distante da família há mais de um mês. Para compensar, ele liga todos os dias para a mulher, Nilda, e o filho Marcos, de 14 anos. “Eles estão acostumados”, afirma, enquanto espera a liberação de um frete no Terminal João Dias, em São Paulo (SP). “Infelizmente, não peguei carga para o Sul. Vou para a Bahia.”

Orlando diz que com o celular e a internet a comunicação ficou mais fácil. “Quando comecei, há uns 20 anos, a gente só tinha o rádio. Hoje as coisas mudaram.” Segundo ele, os caminhões também estão mais fortes. “O bruto não dá problema. A gente só precisa ter cuidado com a revisão preventiva. Quando estamos parados, checamos pneus, suspensão, parte elétrica, como a gente faz com o nosso corpo de manhã”, compara. Orlando ressente-se, porém, de uma dorzinha nas costas, mas diz que não é nada grave. “Com tanto tempo de estrada, não tenho de que reclamar.”

Seu colega Samuel Batista, 53 anos, também aproveita a parada para “dar um trato” no veículo. “Vou fazer faxina em casa”, diz, ao limpar a boleia. “Cuido mais desse aí (caminhão) do que de mim.” Samuel afirma que os 30 anos de profissão mudaram sua maneira de ver o mundo. “Hoje em dia minha vida é a estrada, mas uma pontinha de saudade de casa a gente tem”, afirma.

DESGASTES. Embora tenha um lado divertido, a profissão também provoca desgastes físicos e psicológicos. Para a psicóloga Lígia Figueiredo, de São Paulo (SP), a vida dentro de uma boleia, “como qualquer outra situação continuada de privação”, pode levar ao estresse. Para rebater esse efeito, ela recomenda pausas para descanso, uma troca de ideias com amigos e conhecidos e exercícios de alongamento. “A atividade em si envolve momentos de tensão. São muitas horas na posição sentada, com uma necessidade de atenção constante, às vezes até à noite. Uma pessoa submetida a essa atividade carece de válvulas de escape”, diz.

As longas horas passadas ao volante acabam provocando sequelas que se agravam com o passar do tempo. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) do Hospital das Clínicas – Faculdade de Medicina da USP, 59% dos motoristas de caminhão paulistas sofrem de lombalgia (dor nas costas). O levantamento acrescenta que esse tipo de dor é uma das principais causas de afastamento temporário desses profissionais. “Os caminhoneiros estão entre os profissionais mais atingidos pelas dores cervicais e lombares”, diz o ortopedista Alexandre Fogaça Cristante, do IOT.

ATIVIDADE FÍSICA.“Para prevenir, recomendo manter uma atividade física que proporcione melhor trofismo (ou volume) da musculatura abdominal e paravertebral, como pilates, hidroginástica, natação ou musculação.” Cristante recomenda ainda fazer alongamento antes do início do dia ou de longas viagens, fazer intervalos a cada duas horas para “esticar as pernas” e fazer alongamentos. “Na condução do veículo, ele deve sentar adequadamente, com a coluna apoiada, com flexão dos joelhos e quadris em torno de 90 graus.”

Montadoras capricham nas cabines

Atentas ao problema, as montadoras dão um tratamento especial às cabines em termos de praticidade. “Todo novo projeto contempla necessariamente questões como segurança e conforto do motorista”, diz o gerente de engenharia da Volvo, Álvaro Menoncin. “Temos a cabine mais alta do mercado, volante e banco ajustáveis, painel totalmente envolvente para que tudo fique ao alcance do motorista”, completa. De acordo com o gerente, a empresa ouve motoristas e transportadores para implementar as inovações.

Já a Scania afirma que trabalha no sentido de proporcionar um bom ambiente de trabalho para quem dirige e prevenir prejuízos por afastamento de motoristas ao transportador. “A ergonomia no interior dos nossos caminhões está concentrada nas áreas do corpo apontadas pelos motoristas como aquelas que mais sofrem após horas ao volante –a região lombar, coluna, ombros, punhos, joelhos e tornozelos”, diz o diretor geral da empresa, Roberto Leoncini. Segundo ele, o posicionamento dos pedais e os ajustes do banco evitam desgastes excessivos do tornozelo e da coluna porque permitem melhor utilização dos músculos da coxa e da perna durante o acionamento dos pedais. “Além disso, a caixa de câmbio em três posições evita que os músculos do ombro sejam sobrecarregados.”

PAINEL ERGONÔMICO. Já o engenheiro de vendas da Iveco, Marluz Renato Cariani, afirma que para a montadora a ergonomia não se restringe apenas ao posicionamento do banco e da coluna de direção dos veículos. “Entre outras coisas, temos um painel moderno e envolvente que facilita a leitura dos instrumentos; a coluna de direção ajustável com acionamento pneumático no assoalho possibilitando o motorista fazer a regulagem com as duas mãos no volante”, diz.

Antes de ser um luxo, o espaço para o motorista é uma necessidade. “Aqui tem que ter lugar para a família inteira”, afirma o gaúcho Orlando Climério, que já fez churrasco para a mulher e o filho no caminhão. “Essa é a nossa casa.”

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